HISTÓRIA & CULTURA · ANTIGO EGITO
A Linguagem Secreta dos Hieróglifos
Como ler as paredes sagradas
Hieróglifos · Escrita Sagrada · Champollion · Templos · Pedra de Roseta · Cultura Faraónica
Imagine parar diante da parede interior do templo de Karnak e, em vez de ver uma sucessão de símbolos belos e indescifrais, começar a reconhecer palavras. Um falcão com o disco solar: Rá, o deus supremo. Um oval fechado com signos no seu interior: o cartucho do faraó, o seu nome eterno. Uma figura sentada com a mão na boca: o determinativo do silêncio, do sagrado, daquilo que não deve ser pronunciado em voz alta. Nesse momento, o templo deixa de ser decoração e torna-se um texto. E o Egito, de repente, começa a falar.
I. Medu netjer: as palavras dos deuses
Os antigos egípcios chamavam à sua escrita medu netjer, geralmente traduzido como 'palavras dos deuses' ou 'escrita divina'. Não era uma metáfora. Para eles, os hieróglifos não eram simplesmente um sistema de comunicação: eram uma ferramenta mágica. Escrever o nome de um deus era, de certa forma, invocá-lo. Inscrever o nome do faraó nas paredes de um templo era garantir a sua existência para além da morte. Apagar um nome — como fez Tutmés III com as inscrições de Hatchepsut, ou como fizeram os sacerdotes de Amon com o nome do faraó herético Akhenaton — equivalia a aniquilar a sua alma, a apagá-la do universo.
Esta convicção explica por que os hieróglifos são tão abundantes nos templos e tumbas egípcias, e por que a sua execução era sempre tão cuidadosa. Cada signo era, literalmente, uma entidade viva. Os escribas que talhavam os relevos funerários tinham, inclusive, o cuidado de mutilar alguns hieróglifos que representavam animais perigosos — serpentes, leões, crocodilos — para que não pudessem causar dano no além. A escrita não representava a realidade: fazia parte dela.
"Para os egípcios, escrever não era registar o mundo. Era criá-lo. Cada signo talhado em pedra era um ato de geração, uma pequena vitória sobre o caos e o esquecimento."
II. O silêncio de quinze séculos: como se perdeu a chave
O sistema hieroglífico esteve em uso durante mais de três mil anos, desde aproximadamente 3200 a.C. até ao século IV d.C. O último hieróglifo conhecido foi inscrito a 24 de agosto do ano 394 no templo de Philae, em Assuão — o mesmo templo que hoje se visita na sua ilha relocalizada após o resgate da UNESCO. Depois, o conhecimento da escrita sagrada desvaneceu-se com uma rapidez assombrosa. A ascensão do Cristianismo e, posteriormente, do Islão fez com que os templos faraónicos fossem encerrados ou transformados, e com eles desapareceu a casta de sacerdotes-escribas que transmitiam o saber.
Durante quinze séculos, os hieróglifos foram um enigma absoluto. Os viajantes medievais e renascentistas que visitavam o Egito contemplavam-nos com uma mistura de fascinação e perplexidade, convencidos de que cada signo era um símbolo místico com um significado profundo e oculto — uma interpretação que, paradoxalmente, não estava assim tão longe da verdade, embora por razões diferentes das que imaginavam.
A descoberta que mudou tudo chegou de forma acidental, como costumam chegar os grandes achados. Em 1799, durante a campanha napoleónica no Egito, um oficial francês chamado Pierre-François Bouchard encontrou na localidade de Rashid — que os europeus viriam a conhecer como Roseta — uma pedra de granito negro inscrita com o mesmo texto em três escritas diferentes: hieroglífico, demótico e grego. Alguém, no século II a.C., tivera a ideia de redigir um decreto real nas três línguas administrativas do Egito ptolemaico. Sem saber, tinha deixado a chave do maior enigma linguístico da história.
III. Champollion e a decifração: uma história de obsessão
Jean-François Champollion tinha onze anos quando viu pela primeira vez uma cópia dos textos da Pedra de Roseta. Aos treze declarou publicamente que seria ele a decifrá-los. Fê-lo vinte e dois anos depois, a 14 de setembro de 1822, numa carta à Academia de Inscrições e Belas-Letras de Paris que ficaria para a história como a lettre à M. Dacier. Segundo as suas próprias palavras, ao terminar de a escrever desmaiou e não recuperou os sentidos durante cinco dias.
A intuição genial de Champollion — que os seus contemporâneos tardaram a aceitar — foi compreender que os hieróglifos não eram um sistema puramente simbólico ou ideográfico, mas uma escrita mista: alguns signos representavam sons (fonogramas), outros representavam ideias ou conceitos (ideogramas ou logograms), e outros serviam como determinativos silenciosos que precisavam o significado das palavras sem acrescentar qualquer som. Esta combinação de camadas torna os hieróglifos num dos sistemas de escrita mais sofisticados alguma vez desenvolvidos, e explica por que a sua decifração demorou séculos.
Os três tipos de signos hieroglíficos
— Fonograma: Representa um ou vários sons, como as letras de um alfabeto. Pode ser unilítero (uma consoante), bilítero (duas) ou trilítero (três).
— Logograma: Representa diretamente um objeto ou conceito. O disco solar é Rá. O sistro é Hathor. O djed é Osíris. A imagem é a palavra.
— Determinativo: Signo mudo que se acrescenta ao fim de uma palavra para precisar a sua categoria semântica sem adicionar qualquer som à pronúncia.
— Cartucho real: O oval alongado com uma linha horizontal na base que encerra o nome do faraó. Uma corda que rodeia e protege a identidade eterna do rei.
IV. Como se orientar perante uma parede de hieróglifos
Uma das particularidades mais elegantes da escrita hieroglífica é que pode ser lida em três direções: da direita para a esquerda, da esquerda para a direita ou em colunas verticais de cima para baixo. A chave para saber por onde começar é simples e bela: os signos que representam figuras humanas ou animais olham sempre para o início da linha. Se os pássaros e as figuras humanas olham para a direita, lê-se da direita para a esquerda. Se olham para a esquerda, lê-se nessa direção. A escrita, literalmente, indica o seu próprio ponto de partida.
Nos templos, as paredes estão geralmente organizadas em registos horizontais que se leem de cima para baixo, e em colunas verticais que flanqueiam as cenas principais. As inscrições mais longas — como os Textos das Pirâmides em Saqqara ou os Textos dos Sarcófagos do Império Médio — formam autênticos tratados teológicos que os sacerdotes-escribas conheciam de memória e que hoje os egitólogos continuam a decifrar em toda a sua profundidade.
Um detalhe que transforma a visita a qualquer templo: os cartuchos reais. Esse oval alongado com uma linha horizontal na base que aparece repetido até ao infinito em paredes, colunas e ombreiras contém o nome do faraó que mandou construir ou decorar esse espaço. Aprender a reconhecer os cartuchos de Ramsés II, Tutmés III ou Hatchepsut transforma cada parede numa assinatura, numa reivindicação de autoria sobre a pedra e sobre a eternidade.
"Os hieróglifos não decoram os templos. Os templos são o suporte sobre o qual os hieróglifos fazem o seu trabalho: nomear, invocar, proteger, perpetuar."
V. Os conceitos sem tradução exata
Uma das experiências mais reveladoras que a aprendizagem básica dos hieróglifos oferece é deparar com conceitos para os quais o português — ou qualquer língua moderna — não tem equivalente preciso. O pensamento do Antigo Egito operava com categorias que refletem uma cosmologia radicalmente diferente, e algumas delas merecem uma pausa.
Conceitos intraduíveis do Antigo Egito
Ka — A força vital que anima o ser vivo durante a sua existência. Não exatamente a 'alma', mas a energia criadora transmitida pelos deuses e pelos antepassados. Ao morrer, o Ka permanecia ligado ao corpo — razão pela qual a mumificação era imprescindível.
Ba — A personalidade individualizada do ser humano, o que o torna único e irrepetível. Representava-se como um pássaro com cabeça humana. Após a morte, o Ba podia mover-se livremente entre o mundo dos vivos e o além.
Maat — O princípio cósmico da ordem, da verdade, da justiça e do equilíbrio. Era simultaneamente um conceito abstrato e uma deusa. O faraó governava 'de acordo com Maat', e a alma do defunto era pesada contra a pena de Maat no julgamento do além.
Duat — O submundo egípcio: não um lugar de punição mas um espaço de transformação pelo qual o sol viajava cada noite e os defuntos transitavam em direção à ressurreição. Um território tão real e cartografado como o próprio Egito.
Ren — O nome próprio, concebido como parte constitutiva do ser. Enquanto o nome de alguém fosse pronunciado ou inscrito, essa pessoa continuava a existir. Por isso apagar o nome de um inimigo era, para os egípcios, o ato de violência definitivo.
VI. Ler as paredes: o que muda quando se sabe olhar
Não é necessário dominar os hieróglifos para que o conhecimento básico da sua lógica transforme completamente a experiência de visitar um templo egípcio. Com algumas ferramentas — reconhecer o cartucho real, identificar as figuras dos grandes deuses pelos seus atributos, compreender a direção de leitura, saber o que é um determinativo — a visita torna-se outra coisa.
No templo de Abidos, o mais sagrado de todos os santuários do Alto Egito, uma longa galeria alberga a Lista Real de Seti I: uma sequência de 76 cartuchos que regista os nomes dos faraós reconhecidos como legítimos desde Menes, o primeiro rei unificado do Egito, até ao próprio Seti. É um dos documentos históricos mais importantes da Antiguidade, e percorrê-la em silêncio, reconhecendo alguns nomes, sabendo que cada oval encerrou a identidade eterna de um ser que acreditava que esse signo o protegeria para sempre, tem uma densidade emocional que nenhum guia convencional consegue transmitir.
No Vale dos Reis, as paredes das tumbas estão cobertas com textos do Livro dos Mortos, do Amduat e de outros textos funerários que descrevem, com precisão cartográfica, a viagem noturna da alma através do submundo. São textos pensados para ser lidos na escuridão, à luz de uma tocha, com o mesmo estado de atenção interior que hoje chamamos meditação.
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"Os hieróglifos estão gravados na pedra há três mil anos, à espera que alguém se detenha tempo suficiente para os escutar."
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